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segunda-feira, 28 de março de 2016

Carta

Goiânia,28 de março de 2016.

Irmã,

já se passaram quase três meses completos da virada de ano. O tempo parece não se importar mais conosco. Meu corpo já não responde direito, é como se vagasse no mundo, sem relógio. Minha pela ainda sente muito e, por sinal, tenho a impressão de que está pior, não dói, mas a membrana sente uma agoniazinha incômoda. Não é depressão. Nem ansiedade somente. É algum tipo de problema de estada no mundo. Ainda não consegui reconhecer o lugar do problema.
Tenho a impressão de que morri, mas não, as pessoas ainda me vêem, ainda me sentem. Eu também as vejo. Mas as sinto distantes, sem nenhum desejo de minha parte de contato próximo. Andei achando que eu era sociopata, mas acho que não. Só ando cansado de pessoas. Elas tem demonstrado muito nojo por coisas que eu amo, muito problema com minhas ideias, muito desânimo pelos meus desejos. Isso não é novidade, hei de me afastar, você sabe.
E hei de dizê-lo, não tenho o menor peso na consciência. E isso está me matando. Pergunto todos os dias pra mim mesmo se devo, e nenhuma outra resposta me vem na cabeça que não "vaza!". É reconfortante, de fato. Mas é uma loucura pensar que tenho coragem (e vontade) de sumir no mapa, ir fazer minhas coisas, viver minha vida, realizar meus sonhos. Ou não, quebrar a cara, morrer de amores, passar frio, sentir medo. Eu quero. E quero muito.
Estou com medo agora porquê ainda não sei como pedirei desculpas para as pessoas. E acho que ainda não sei porquê, definitivamente, não acho que seja motivo pra eu me desculpar. De qualquer forma, amo as pessoas que deixarei, ou que quero deixar. É difícil explicar que não são elas, sou eu. É clichê, mas minha vida sempre foi um clichê mesmo. E eu adoro essa cafonice que me representa.
Nada há de me segurar, pelo visto. Minha fé tem outro lugar, outra vivência. Não consigo ficar preso, ser escravo de mim mesmo. Talvez Exu tenha de fato ficado mais próximo, desconstruindo essa ideia fajuta de vida revolucionária gourmet. Tenho muito o que agradecer a ele. Tenho muito a agradecer muita gente. Mas é muita gente mesmo. E a maioria delas não quererá sequer olhar pra mim quando eu disser tchau. Meu coração está meio dolorido com isso. Mas ele sorri muito quando questiono o que há de ter atrás da esquina. Será que é mar? Será que é deserto? Será que é mata? Será que é concreto?
Que me perdoem os caretas, os imóveis, os estáticos. Muito se movimenta aqui dentro. E sou pequeno, não aguento segurar em mim. Me perdoem, uma pessoa só não aguentaria. É muita coisa, acredite. Aliás, você sabe.
Finalizo com um beijo, que te mando de cá. Receba aí e saiba, estamos mais próximos que você imagina e que podem ver. Me sinta. Vou pra estrada que é dela onde nunca devia ter saído. Nalgum lugar aportarei. Em muitas ondas serei jogado. Devo parar por aqui de novo, daqui uns anos. Espero sua visita. Saudades.

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