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quinta-feira, 22 de junho de 2017

Abiãn

A renovação de toda e qualquer fé está no abiãn. É ele que faz com que as iaôs e as egbomis perceberem que a roda da ancestralidade continua girando.
O abiãn que lava a casa, que rastela o quintal, que lava a louça, pra que os orixás sejam louvados na melhor das condições, enquanto os mais velhos no santo possam cozinhar, dar banho, dar santo.
Quando as iaôs estão viradas, são os abians que cantam, respondendo o axé dos atabaques, respondendo a voz dos ogãns, fortalecendo as ekedis.
O abiãn renova as esperanças, os desejos que vão se confundindo com o tempo, a paciência que vai se perdendo com a experiência. Nada no terreiro se confunde ao olho brilhante do abiãn apaixonado pelo santo.
Abiãn canta confuso, grita na hora que não devia, bate cabeça onde não carece. Abiãn ri das bobeiras que dá. E olhando pra eles, conseguimos nós que já casamos com o orixá, perceber o quanto o tempo e as responsabilidades nos fizeram carrancudos, ou metidos, ou prepotentes.
Abiãn é a energia do mundo, o começo, o frio na barriga, o olho brilhante, a curiosidade, o riso, a empolgação. Abiãn é aquele que está pra aprender, mas em silêncio deixa o segredo de quem também ensina.
Motumbá aos abiãns, que renovam minha fé todo dia, nas perguntas mais bobas, nos sentimentos mais sinceros, nas dúvidas mais simples. Na força do princípio da ancestralidade.
Se você não é do candomblé, abiãn é a pessoa que chega no terreiro e ainda não se iniciou, ainda não se tornou iaô.

segunda-feira, 5 de junho de 2017

clichê

Uma brecha de luz
Me trouxe um frio
Na barriga
E um calor
No coração.
Se quero o cafuné deixo o beijo,
se quero o oi deixo o adeus,
se quero a saudade deixo o abraço.
Um surto de paixão
me trouxe o riso
de canto
e um brilho
nos olhos.

terça-feira, 30 de maio de 2017

Quando o mundo acabar


Quando o mundo acabar, imagino que teremos alguns sinais mais claros poucas horas antes do espetáculo principal. Que nem show de festival, onde o meteoro é o último a tocar. O céu deve se escurecer, ou o sol não aparecer. Quando isso acontecer, eu quero estar numa plantação de cana, com uma faca bem amolada, um tamborete, tabaco e seda, e dois isqueiros - novos! Eles se perdem, acabam quando menos esperamos, melhor remediar. 
Ver o fim do mundo chupando cana tem um certo trem, quando imagino. Eu quero.

terça-feira, 23 de maio de 2017

As Mulheres

Nasci.
Tinha uma mãe. Outra me amamentou. Outra servia o escaldado.
Já foram três.
Moço, quando eu parti o joelho no meio, minha vó que me segurava no colo dela.
Quando eu senti fome, fugindo da cronologia, minha tia me amamentou.
Eu lembro de cada professora que eu tive.
Cê pira?
E da menina que eu escrevi uma carta e ela nunca me respondeu?
Até me abraçou no outro dia como se nada tivesse acontecido.
Quando eu desmaiei quando, por leseira, bati na pilastra, foi a Lígia que me segurou a onda.
Tudo girava.
Antes de ir pra escola, foi a Maura que me levou.
Paixão infantil é bom porque a gente não lembra depois.
Minha tia era minha professora, e foi a primeira vez que eu fui pra coordenação.
Tinha uma muda também.
E um pé de amora.
A Bruna.
A amiga que morava com a mãe no barraco de adobe.
Mãe de sangue.
Mãe de leite.
Mãe avó.
Mãe de Cristo.
Mãe de Santo.
Mãe gira.
Dama da Noite.
Maria Padilha.
Sete Saias.
Rainha.
Uma mais santa que a outra.
Moço, moleque levado, com tantas madrinhas.
Na fogueira são duas vezes.
Madrinha que cortava meu cabelo. Quem botou a mão na minha cabeça pela primeira vez.
Madrinha do supermercado. Minha lembrança do ovo de páscoa.
Madrinha da cidade onde eu nasci. Quem me esperou.
Madrinha da fogueira, onde renovou nosso laço no fogo.
Madrinha do rio. Da água. Da calma. Da proximidade ancestral.
Madrinha entidade.
De fora as amigas.
São tantas.
Esqueço do nome, mas nunca da cara.
Nem do carinho.
Nem do caminho.
Agradecido.

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Conspiração parabólica

Será o dia em que vai entrar pela porta, sorrir ao avistar o pé de tomate que cresce junto com a espada de são jorge, tirar o sapato em cima do tapete, tocar o trenzim de barulinho pendurado só pra ouvir plim plim plim. De dentro do quarto eu reconheço quem preside o ritual.
Abro os olhos, rio, animo. Não visto camiseta, sento assim mesmo no canto da cama e pego a seda. Respondo a homilia da sua chegada, balanço o folheto enquanto canta pra mim. 
O Pipoca aparece pra avisar que tem alguém muito querido em casa. Eu digo que já sabia, enquanto enrolo. Você encosta no portal da porta, com aquela cara mais lavada do mundo, aparando meus medos. Lambo, colo o papel, você oferece o isqueiro, eu aceito. 
Combinamos tão bem. Conspiramos atraentes e atrações.

quarta-feira, 10 de maio de 2017

7 coisas que meu celular, a internet e meus perrengues me ensinaram

1. Pra esquecer algum relacionamento amoroso malacabado não basta só bloquear nas redes sociais e excluir da agenda do telefone. É um processo dolorido de retorno a mim. 
2. Ter mais de mil amigos ou seguidores não me faz bem acompanhado ou não anula o fato de me sentir solitário. A solidão é uma beleza pra desembrulhar coisas velhas e melhor ainda pra jogá-las fora. 
3. Quando alguém (ou eu mesmo) apaga algum post não significa que deixou de pensar diferente. E quando alguém (ou eu mesmo) posta algo não significa que realmente acredita naquilo. 
4. É mais fácil apaixonar por perfil online que por prosa pessoalmente. 
5. Não é porquê acabou a bateria do celular que a minha também tenha acabado. Consigo sobreviver sem esse aparelho. 
 6. Tá tudo meio perdido, tentando se encontrar. 
7. O gigante acordou e pisou em cima da gente tudo.

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Vi a mãe

Vi a mãe.
Meio confuso, 
que nem maré alta
que bate em pedra
que arrebenta muralha.
Hoje vi Iemanjá em mim,
que cuida de minha cabeça
que dá colo de mãe
e canto de sereia.
Deixa cair pra ver o choro
e o aprendizado.
Bagunça as vistas,
que nem água salgada.
Nas minhas lágrimas 
mato minhas saudades de Iemanjá. 
Saúdo o mar,
e o rio que cultuam Iemanjá.
Salve a mãe cujo filhos são peixes,
Senhora do espelho de prata,
Rainha do mar.

domingo, 30 de abril de 2017

Cerrádico

Eu, que sempre fui úmido, lânguido e aparentemente chuvoso, sequei o chão, entortei o caule, abaixei. Pego fogo só pra me ver renascer, e enquanto as chamas consomem minhas flores, preparo minhas sementes. Aprendi a guardar líquidos vitais dentro de mim, pra reflorir. Do calor sempre me afeiçoei. Quem passa por esse chão o faz rastejando, encostando a maior parte do corpo. Entre cobras e lagartos, sinto o toque e esquento a relação. Terra inflamável, só sobrevive quem sabe correr quando necessário. Em mim nascem as águas que saciam a sede, que fazem crescer as árvores de um país inteiro. Crescem os poços, tomam banho em mim, mergulham, me bebem. Escorro-me. Por fora sequidão, por dentro mar aberto. Empobrecido de nutrientes, aprendi me valer com o pouco que me sobra. Ainda assim me divido, me retorto, me refaço pro mundo. Me destroem. Acho lindo os amazônicos, mas valorizo os cerrádicos.

quinta-feira, 27 de abril de 2017

A Guerra

Queria, na guerra, ligar o foda-se. Não participar de frente. Estar dormindo enquanto as bombas estouram os miolos dos soldados. Guerra é guerra, segue-se o fluxo dos mísseis, não dá tempo para a desatenção, qualquer fala é passível de morte. Em cada esquina uma proteção, no meio da rua um ataque. Não existe civil. 
Na guerra, só contabilizaremos os perdidos depois da última batalha. Só choraremos os mortos depois do último tiro. Em guerra o tempo corre diferente, hora mais rápido hora cerrado. Em guerra, sorriso é força, abraço é escudo e esperança é arma. 
No campo de concentração morrem aos poucos os primeiros combatentes. Em algum momento salvos. Não queria estar em guerra. Queria poder olhar os campos verdes de outrora, nesse deserto ao qual nos afundamos em areia movediça. Perdido, caminho, encontro outros cegos e aleijados no caminho. Vejo uma janela.
Longe, talvez nem tanto, uma miragem de reencontro. Um ponto forte de energia que segura as mãos dos mais atingidos. Nossos espíritos se unem em força, em luz e em cuidado. Vejo um trem bom, não sei direito o que é, talvez por tanta poeira de parede dos prédios derrubados dentro de mim; talvez por nunca ter experimentado nada parecido. 
Mergulho, e debaixo dágua respiro. Tudo muda. Emerjo, e o sol já aparece, como um fim de tarde tranquilo em cidade do interior, de onde surgem horizontes diferentes, um mais bonito que o outro. A noite virou pôr do sol. O tempo conta-se natural, nem muito nem pouco.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Carta #1

Goiânia, 24 de abril de 2017

Morei em cinco estados diferentes, tive contato com muitas pessoas que até hoje são importantes para mim. Criei afetos e amizades sinceras em todos esse lugares e todo dia revivo memórias. Gosto de observar, tanto quanto de conversar.
Quando eu era pequeno gostava de fazer excursão, que queria dizer expedição. Descobrir cantos, buracos. Só gostava do céu a partir do pôr do sol, quando mirava as estrelas. Me apaixonei por elas como pelos cantos miúdos e escondidos da terra. Carreguei isso comigo.
Eu falo alto quando estou afoito e feliz. Com raiva falo baixinho. Não sei porquê, mas isso me faz muito bem. Gosto de conversar com pessoas e fotografar lugares. Às vezes perco o tempo da foto pra ficar olhando, e não converso com pessoas pra sentí-las, o que me faz bem também. 
Todos meus amigos e amigas querem viajar o mundo fotografando-o. Eu só queria descobrí-lo. Aprendi, desde pequeno, a conhecer os buracos e as estrelas dos lugares. E deve ter tantos nesse mundão. 

A cabeça está lá.
Não adianta a resiliência. Nem a crença, nem o amor.
A cabeça continua lá.
Muito importam as pessoas, exporta sentimentos.
A cabeça continua indo.
De jeito nenhum que volta, o coração acompanha. Dão as mãos.
Cadê pé pra ir?
A cabeça e coração estão lá. Olham para trás com um afeto imenso, mas continuam lugar longe, verbo futuro.
Vão parar, fazer uma roda de dois, pedindo aos céus que façam os pés acompanharem.
O façam rápido!
Pé sem coração é triste e sem cabeça confuso.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Quem me nina é Oxum

A mãe da água doce
Rainha do balanço
Mulher com voz de mando
Menina a brincar
Na beira do rio
No fundo da água
A deusa do ouro
Tu és meu tesouro
Dança pra mim
Quem me nina é Oxum
Que menina é Oxum
O rio, Oxum
Oxum
Com a anágua
Da sua saia
Seca as lágrimas
Dos filhos seus
Quem me nina é Oxum
O rio
Oxum
Yê yê ô

domingo, 16 de abril de 2017

conto reencontrado não finalizado

À noite, enquanto Mitra dorme, Zé assiste sua televisão e Andrea pega seu ônibus, seu último ônibus para ir para casa. Depois de passar debaixo da catraca enquanto o fiscal do ponto não via, estava ali naquele terminal, o mesmo de alguns anos desde que se mudara para Goiânia. A faculdade havia largado e nunca mais aparecido no campus, salvo as vezes em que queria ser salvo, ou de bebida, ou de maconha. Tinha diminuído o uso do 'braw', mas vez ou outra, frente ao pôr do sol quase sempre alaranjado dos meses depois de julho na cidade, se animava em acender 'um' em alguma rua do Centro, menos movimentada, e fumar naturalmente, como se fosse o Dunhill, sempre acompanhante do “verdim”.
Mitra, que tinha esse nome porquê segundo seu pai, parecia um “solzim”, de tanta luz que acendeu na sala de parto. A mãe, morta no parto, não teve chance de visualizar tanta claridade. Dentro dela, se apagava a faísca, dando o protagonismo para o filho. Hoje descoberta filha. Dormia cedo porquê trabalhava num desses hipermercados, serviços gerais. O expediente começava às 7h, o que fazia com que Mitra levantasse todos os dias 5:30, tomasse seu banho e café da manhã, pegasse sua moto recém comprada e levasse mais trinta minutos até o trabalho. Gostava de banho demorado.
Calado, Andrea se revezava entre sentar no meio fio do terminal ou fumar um cigarro no fundo da última gente que ia para casa naquele último ônibus, que passava às 23:45. Sempre chegava adiantado no terminal e atrasado em casa. Aquela hora, por exemplo, era 23:10. Cansado, cochilava dentro do ônibus, já que demorava algum tempo dali até sua casa.

Zé arruma a cama de solteiro, já para se deitar, ao mesmo tempo em que Andrea abria a porta de sua casa, tentando fazer o menor barulho possível, para não acordar a família que já dorme. Mitra está em seu sétimo sono.  

sábado, 15 de abril de 2017

um processo abandonado e reencontrado

Som de floresta. Bichos diversos. Pássaros, mamíferos, feras. O som vai aumentando.
Palco vazio. Luz baixa, esverdeada.

Entra Flávia, desconfiada, olha para a plateia, vai até o meio e volta a se esconder.
Entra Régis, do outro lado do palco, também desconfiado. Régis carrega numa das mãos pedras. Volta correndo pra coxia novamente.
Entra Flávia e Régis, muito desconfiados de costas um para o outro. Param a certa distância um do outro, e ainda de costas, dão um grito gutural. A música cessa. A luz aumenta.

Flávia: Chega!
Régis: Já viu?
Flávia: Não, cansei.
Régis: Flávia, não dá pra cansar na selva.
Flávia: Eu cansei. Que me comam. Que me matem. Não vou correr.
Régis: Agora não vão querer mais. (Sorri)
Flávia: Me entreguei, né? Vão me apedrejar, “a oferecida da mata”.
Régis: Piriguete selvagem. (Gargalham)
Flávia: Essas coisas são malucas. Pensa comigo, são todos ditos selvagens, respondem por seus instintos, gritam com você, cospem na sua cara, te perseguem, te batem, te matam. São animais, então está tudo certo.
Régis: É isso. A partir de hoje sou um animal. Um bicho.
Flávia: O quê?
Régis: É isso, se não posso sendo diferente, usarei o mesmo direito. Serei igual. (Gritando para que todos ouçam) A partir de agora estou do lado dos animais selvagens, daqueles que bradam aos quatro cantos sua intolerância com bichos menores. Bato no peito.
Flávia: Régis, que vexame.
Régis: Você vai ver. Desculpa, agora você está sozinha. Passei pro lado deles.
Flávia: Régis, até afeminado você é. Pára com isso.
Régis: Vou falar com o gorila, avisá-lo que sou da parte selvagem. (Sai)

Flávia: Que coisa não? Régis agora é macho selvagem. É um direito. Só quero ver como ele vai lidar com essa situação quando mandarem ele ir lá na casa dos pais dele... coitada da mãe. Ah, qualquer coisa é só fazer como ele, sejam selvagens, seja igual os outros e não sofrerá.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

memória da desintegração

em fragmentos,  uma memória reconstrói os caminhos que andei culpam os planetas  e suas posições.  o kama sutra celeste confunde.  nem todas possibilidades do mundo conseguiriam traduzir o movimento das estrelas. um sexo tântrico é feito entre os astros como quando estou amarrado nos seus braços. somos lua e vênus, num crescente envolvimento. gozamos via lactea.

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Meu pai é rei

Meu pai é rei
Da coroa de fogo
Do além mar
Meu pai é rei
Da cara vermelha
Da pele preta
Meu pai é rei
Do alto da pedreira
De dentro da fogueira
Lá no rio ele beira
Vendo Oxum dançar
Meu pai é rei
Que chama a chuva
Que grita nas nuvens
Acompanha Oyá guerrear
Meu pai é rei
Mas não compreendeu
O modo de Obá amar

Nosso povo

Fico pensando 
Em quando fui cigano
Onde foi que ficou minha estrada.
Hoje tenho o malandro
Correndo pelas ruas
E o sangue na madrugada.
Se Seu Balança
Sabe dos trem
Não tem ninguém
Pra falar.
Salve a força da Calunga
Que o véi mora
Salve também
Toda boemia
Que Seu Zé toma.
Laroiê esse povo
Que de tanto saber
Ajuda nóis caminhar.

O menino que sabia das coisas

Eu conheci um menino que sabia das coisas. Tinha nascido homossexual, e sabia disso. Tinha nascido no lugar certo e na hora certa, e sabia disso. Tinha vivido muito em muitos lugares e aprendido tantas coisas que o fizera um calabouço de histórias e sensações diferentes, e sabia disso. Sabia, por exemplo, que as pessoas vão, um a hora ou outra e que se for muito cedo ou muito tarde é a hora delas irem.
Ele aprendeu tantas coisas interessantes e importantes, mas uma ele não conseguiu entender. No entanto, como já sabia que tudo tem seu tempo pra todo mundo, não se preocupou muito com as limitações das pessoas. Mas aprendeu, como quem vive pra aprender, que não tem responsabilidade para com as imbecialidades das pessoas. Já sabia que gente suga energia de outras gentes, e agora sabia que não tinha nada a ver com esse tipo, e que queria distância. Sabe-se pouco dele, pois sumiu no mundo, mas imagina-se que está muito mais feliz depois de mandar os babacas tomarem no cu.

quinta-feira, 16 de março de 2017

Sarajevo

Eu ficava imaginando como era estar em guerra, mas não sabia que meu corpo é campo de batalha.
Eu ficava imaginando o que era crescer, mas não sabia que quando fosse grande não seria do tamanho que imaginava. Nem que isso era diferente, que os tamanhos são relativos. Crescer está mais na descoberta que naquilo que eu acreditava que seria.
Desenvolvo-me ao passo que cada vez mais desconstruo. Enquanto meu corpo toma formas maiores, minhas convicções caem por terra. O abismo continua. E isso me segura. Minha segurança é a queda livre.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Fôia

Essa noite eu sonhei com o sumo do ejé das folhas. Ossaim me mostrou. O segredo do axé do homem tá na folha do pé de árvore que Agué tirou.

?

Uai, se não seria possível sobreviver do que eu nasci pra fazer, por que me perguntaram o que eu queria ser quando crescesse?

Vem chegando o velho

De longe, avistei um velho. Ele vinha aparecendo junto com o sol que subia no horizonte. Sua luz abria as barreiras do espaço-tempo e sem sombras, caminhava a passos lentos. Em silêncio, a cidade estava feliz pela passagem da côrte do pai encurvado. Todos louvam em sussuros o mais velho dos orixás. Êpi êpi babá Oxalá!

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Milleniuns

Quando ele abriu o jornal, viu uma matéria relacionada a um tal de milleniun, que não sabia o que era, mas lendo chegou a conclusão que era o povo que tinha nascido depois de 90 e principalmente 2000.
Ele, lá nos seus 60 anos, com sabedoria popular, nascido em 93, só conseguiu sorrir. Primeiro porque nunca pensou que chegaria em 2053; depois, que a sociedade nunca esteve tão errada quanto aos jovens daquelas décadas; e por fim, foi quando gargalhou "o medo das transformações que essa velharada sentia naquele tempo, fez com que inventassem e convencessem grande parte deles, inclusive, milhares de sintomas e doenças e estilo de vida que diziam ser errado. Mas os milleniuns são mais espertos que os mais antigos, e conseguem também chegar aos 60. Que coisa, não é?"
Dormiu aliviado aquela noite.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

O Coelho

O coelho tem dificuldades em assumir o que enxerga nas outras pessoas. Quando conheceu Marisa, por exemplo, ficava horas tentando se convencer de que ela era mesmo aquilo que se mostrava, afinal alguém que compra balas de manhã e as guarda para abrir os pacotes ao meio dia com a desculpa de que tem hora para comer balinhas. Por mais fofinho que seja, o coelho não confia nas pessoas, mas finge com sua carinha arredondada, seus pelos fofinhos e olhares sutis. Marisa nunca convenceria o coelho de que é certo ter horário para uma coisa dessas. De qualquer forma, nem eu confio em quem tem horário para chupar balas.
Marisa não é essa mulher corretíssima, descobrirá mais na frente. “Aliás, quem o é?”, perguntava todas as vezes que alguém tentava justificar que algumas pessoas são certinhas demais. “Rapaz, as pessoas fingem, e fingem tão melhor que você. Se lembra daquela vez que sua pupila dilatou quando foi tentar mentir sobre o amante do seu amigo? Pois é, tem gente que nem dilata a pupila”. O coelho era desses, nem pupila dilatava. Uma vez decidiu dizer pra seu pai tudo o que o incomodava e que não gostava naquela figura de macho alfa, no entando o faria ao contrário: “Oi, pai. O senhor é uma das pessoas mais incríveis que conheço. Sabe respeitar os limites dos outros e, não sei como, equilibra seus desejos com suas responsabilidades de uma forma tão leve...” e por aí vai. Olhava nos olhos do homem com tanta veemência que o fez acreditar que era bom. Depois disso, todas as vezes antes de dormir exercitava seu talento em mentir e mentir e mentir.

Começou a estudar muito jovem, aos 7 já estava na frente de muitos coleguinhas. Aos quatorze lia Saad. Contava uma história como ninguém aos dezoito. Aos vinte e quatro segurava a onda nos bares, quando os amigos não conseguiam mais beber e arranjavam briga por qualquer coisa. Aos vinte e oito parou de sair, redescobriu-se antissocial e preferiu prestar um concurso público que o fizesse ganhar bem sem trabalhar finais de semana. Assim o fez. Aos sessenta tomou chumbinho, morreu sozinho em casa, numa tarde de calor, vendo Desventuras em Série na Netflix. Numa carta que deixou, se mostrava confuso e ao mesmo tempo de saco cheio dessas novas modinhas, além do mais impaciente pra esperar mudar alguma coisa. “Já vi mudanças demais, e já me basta morrer vendo Netflix”. No dia anterior havia excluído a conta do Facebook por considerar demais morrer e virar um túmulo virtual.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

A santa foi quebrada com martelo de ferro, o que é um absurdo, a gritos ferrenhos de fiéis fervorosos e cegos. A internet caiu de pau. Mas quando os santos orixás gritam porque estão sendo quebrados, quando o filho de santo grita pedindo socorro porque a cabeça e a casa dele está sendo atacada a ferro e fogo, só alguns olhares de indignação. Aí, quando se articulam e pedem respeito, gritam! Só que o grito que é ouvido é seletivo.

sábado, 10 de dezembro de 2016

Goiânia obássy

Goiânia é filha de Xangô. 
Goiânia é pedra, 
caminho duro de subir, 
escalada complicada, 
necessário se amarrar pra conseguir.
Goiânia é filha de Xangô. 
É áspera como a pedreira. 
Morada de bicho goiano, cabreiro, rasteiro. 
Muro pedregulho, 
de difícil transposição.
E dentro proteção.
Goiânia, pra mim, é filha de Xangô.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Filho de segredo segredo é

Filho do segredo
até pro próprio segredo,
que me suspira as respostas
da não crença,
os caminhos
que não tem marcas,
na pele
a coceira do que negam.
Ser filho de segredo dói,
por quê nunca aceitarão
que não sabem daquilo que só eu ouço,
sinto
e vivo.

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Uma semana de bem


Acorda de manhã, coloca os ingredientes do suco detox dentro do liquidificador, espreguiça enquanto batia. Aos goles, liga a televisão. Aos xingamentos, se veste. Reclama em voz alta que o país não tem mais jeito, que os direitos das pessoas de bem tem sido trocados pelos bandidos, bate palmas pro juíz que predeu um mas esqueceu dez. 
Antes de chegar ao trabalho, deixa sua filha na escola de princesas e seu filho no judô. Isso às segundas, quartas e sextas. Terças e quintas amenina vai pra natação e o moleque pra aula de reforço em matemática. 
Fura o sinal de trânsito, chama de "viado" o cara que deu sinal de vida pra atravessar a faixa, de vadia a mulher que vai na velocidade proposta pela placa da avenida. Tenta encontrar uma rádio, alguma pregação cristã que o faça ter vontade de continuar a subir na empresa que trabalha.
No trabalho é aquilo todos os dias, reuniões e contatos, algumas demissões e contratações, orações entre turnos e ele vai subindo, ganhando a confiança dos patrões que o chamaram pra ir na igreja sábado. O resto da semana é igual, tirando algumas brigas com a esposa e tentativa de correção nos filhos. 
Final de semana vai almoçar na casa da prima, algumas brigas na mesa da comida, com a feminista comunista da família, que usa vermelho "só pra afrontar" e quer ler autores malditos como um tal de Paulo Freire. Toda vez a mesma coisa. Ora e pede pela alma dela e de todos ali presentes, mas dela em especial.
Domingo acorda mais tarde, gosta de ficar em casa, assiste televisão, ri das pegadinhas do Faustão, aquele quadro em que paramos pra rir das quedas de outras pessoas enquanto o apresentador milionário faz os comentários mais sem graça da televisão brasileira. Na verdade reveza entre esse e aquele no outro canal, de calouros. Chega a noite o homem de bem vai dormir, esperando recomeçar a semana. Amém.

terça-feira, 22 de novembro de 2016

Nosso caso não é entre polícia e ladrão


Falam como se preocupassem, mas não se preocupam com policiais ou com bandidos. Muito menos querem saber do que é mais ou menos grave. Só se preocupam consigo mesmos. Querem mesmo a morte de quem é diferente. 
Criaram esse fetiche nojento, pra não dizer maldito, nas fardas, nas armaduras dos heróis. Cresceram e aceitaram a não existência do papai noel ou do coelhinho da páscoa, mas nunca superaram a ideia de que não existem heróis, e procuram incessantemente por eles, criando pedestais. 
Não se preocupam com a justiça mas se sentem no direito de julgar. Só mudaram, e male male, o discurso. Mais uma vez, não é de policiais e bandidos que falam. A vida, crianças, não é uma brincadeira de polícia e ladrão. 
Se tivessem preocupados demais com o que é certo e errado, talvez saberiam dos que morrem inocentemente pra que o espetáculo genocida diário aconteça. Todo domingo, patética e preocupantemente, sentam na frente da TV pra ver o sofrimento alheio e rirem. Chamam a dor alheia de pegadinha. E se esbaldam. 
Não querem saber de polícia e bandido. Querem apontar um culpado antes que descubram a sua culpa. E disso, da culpa, estamos todos fadados. Odeiam saber que tem gente resistindo bravamente nesse jogo da vida, com muito menos. Não sei se é inveja ou que é, mas o ódio é visível, e dá pra sentir. 
Nosso caso nunca foi de polícia e ladrão.

domingo, 23 de outubro de 2016

Pequena carta de amor e perdão

Meu amor,
na distância entre nossas retinas
um universo nos distancia,
Desculpe.
Perdoe minha habilidade
em perder o foco,
em desistir de tudo,
em calcular a queda
e mesmo assim me jogar.

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Anjo caído

Eu estava passando
passeando 
aqui do lado
e a força da gravidade me sugou.
Não era pra estar aqui,
foi um grande engano.
Quero ir embora,
alguém sabe onde eu falo
sobre caso
de anjo caído?

terça-feira, 18 de outubro de 2016

Corpografias urbanas da saudade

Anápolis - cabeça - o nascimento, onde tudo parece colorir. Mas não cheguei a conhecer Anápolis antes dos 20. Duas semanas e eu já tava em Palmeirópolis.
Palmeirópolis - coração - até os 6 anos, onde eu aprendi a andar, a andar de bicicleta, a tomar banho de rio, a fugir das pessoas, a soltar pipa, a amar.
Luziânia - pés - onde eu aprendi que o mundo é grande, e múltiplo, e perigoso. Aí eu aprendi que eu gosto mesmo do perigo. Quando me roubaram a bicicleta pela primeira vez. Quando eu apaixonei a primeira vez. Quando eu lia pornôs, quando eu redescobri a paixão por mato e terra, quando eu ganhei padrinho e madrinha que eu realmente amava e quando o Ratinho me parecia meio interessante.
Brasília - Cruzeiro Novo - cérebro -
Miracema
Palmas
Palmeirópolis
Goiatuba
Santa Maria Eterna
Uberlândia
São Benedito do Rio Preto
Goiânia


segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Uns caminhos


Quando eu nasci, já fui logo batizado na Igreja Católica Apostólica Romana. Herança de meus pais, que herdaram de seus pais... Ganhei padrinho, madrinha e a bênção que se ganha nas boas intenções da água na cabeça da criança, no caso eu. 
Quando me entendi por gente eu era católico. Participei de grupo de jovem, fiz catequese, primeira comunhão e na hora da crisma, percebi que meus dons, aqueles que se recebem nessa cerimônia, me mandavam pra outro caminho.
Fui companheiro das Irmãs Cabrinianas. Inclusive, hei de dizer que se não fossem essas freiras, eu não seria metade do que sou hoje. E se vocês gostam de mim, agradeçam a essas mulheres também. Com elas aprendi o catolicismo popular, as Comunidades Eclesiais de Base, a possibilidade de um cristianismo que saía da batina e do hábito. A força dessas mulheres missionárias é tamanha! E eu aprendi a ser forte com elas. Aprendi também, com essas freiras, que existe uma diferença bem grande entre ser sutil e ser fraco. E foi com elas que eu percebi que o catolicismo já não me aprazeirava, não me fazia feliz e não me ajudava mais a desconstruir coisas em mim, pelo contrário, reforçava preconceitos e julgamentos. Deixei de praticar.
Então conheci o candomblé. E passo, até hoje, quatro anos depois do meu primeiro contato, por desconstruções enormes de coisas absurdas que eu aprendi com o preconceito alheio. Hoje é o lugar que me faz feliz e me mostra muitos caminhos pra minha vida, que só eu posso trilhar e escolher. 
O candomblé também me ensina, em muitos casos, como não ser. Nem todas as coisas me comprazem, mas quando meu pensamento está ligado ao meu orixá (não necessariamente no transe), sou uma pessoa feliz. E percebo também que aprendo a ser uma pessoa melhor, por mim mesmo e pelos processos de amadurecimento que a experiência no terreiro me proporciona.
Depois do catolicismo, e da minha vivência profunda e verdadeira na Igreja, percebi que religião (e a falta dela) é uma escolha pessoal. E não obrigatória! E que não faz nenhum sentido se essa experiência não vem acompanhada com felicidade e paz de espírito. Não acredito na obrigação da tristeza e nem do sofrimento.
E depois do candomblé, percebi que as coisas são extremamente mutáveis, que minha consciência é o deus soberano, e que cuidar da minha cabeça me fortalece. Tem gente que vai no psicólogo, outros no terapeuta, outros nas drogas. Eu gosto de Orixá! Mas não anulo a possibilidade de, vez ou outra, algum dos outros três. 
Estarei no candomblé pra sempre, como pra sempre também estarei no catolicismo, pq eles sempre estarão em mim.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Meu amigo Zé


O caminho é com meu amigo Zé. Quando não sei, ele me diz, quando não quero, ele me ajuda, quando eu brigo ele ri, quando ele briga eu ouço. É sabedoria primordial, de um conhecimento simples e bamba, que confunde até os mais sabidos. 
E no preconceito dessa gente 'branquela', que acha que dinheiro é tudo e que passa perfume pra esconder o cheiro da infelicidade, ele se faz pura cachaça e cigarro, pura sujeira da calçada, puro senhor da sarjeta.
Meu amigo Zé Pelintra, aquele que resignifica a palavra realeza, que desconstrói o poder do castelo, que desfaz o luxo das festas pomposas. Ele que aceita a areia da praia como tapete, a calçada como cama e os corpos suados das mulheres da rua pra entregar sua existência. E goza, com as mulheres e com a vida.

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

A guerra


Engana-se que a guerra é externa. Os tiros saem da nossa mente e atingem o coração. As foices cortam nossos sonhos. As algemas prendem nossos caminhos, aqueles que nós precisamos trilhar, mais ninguém. 
É dentro de nós que a pancadaria rola solta. E bate, quando esperamos mais do outro, quando cobramos a atenção que não temos, quando exigimos o lugar de prestígio que nos prometeram. E enquanto isso, a revolta aumenta e, consequentemente, os tiros.
A guerra é minha, todos os dias ao levantar, a lidar com o preconceito que eu alimentei, com todo machismo que eu me convenci. É minha quando eu luto, sem perceber, comigo mesmo e num ato auto destrutivo, destruo o outro. 
Não existem vítimas nessa guerra. Ela é diária. Lidar conosco mesmos é tão mais fácil, aparentemente. Segure os desejos, cale a boca, medite, agora dance, agora sorria, olha a foto, reze, abrace, sorria de novo e finja as good vibes. Parece piada, mas nos convencemos, nessa guerra, a nos convencer. O que é horrível, pq é sozinho no banheiro que vemos as ruínas de nós mesmos, dessa guerra que, transferida pra fora, acontece é dentro. E não tem convencimento que suporte as miragens.
E, se pensarmos que cada um tá passando uma guerra agora, independente de lugar e direito, seguramente contribuiremos pra amenizar os sofrimentos e as marcas dessa guerra. Como tudo que vai volta...